
Anos mais tarde, ao se lembrar do fato, ele haveria de achar graça de sua aflição e contaria a seus pares, sorridente, a sua boa sorte na vida. Na hora, porém, tudo a que conseguia se ater eram duas faixas amarelas que surgiam irradiantes no céu.
A se recordar dos objetos celestes que conhecia e dos alucinógenos que não usara, à terceira aparição das listras, perguntou ao amigo o que seria aquilo, tão estranho, tão brilhoso, que riscava a noite, ziguezagueando desaprumado, e que a multidão parecia ignorar. Não obteve respostas, apenas um frasco d’água, que lhe foi entregue sob olhares suspeitos. Para afastar-se da desfeita, despejou todo o conteúdo no copo de whisky e pôs-se a pensar no desespero em que se encontrava.
Fizera a barba propositadamente no quarto dia anterior, de forma a ficar do jeito que ela mais gostava exatamente na data programada. Vestira a camisa vermelha, do lado bonito e, de frente ao espelho, ensaiara todas as palavras a serem ditas. Comprovara que a fotografia dos dois permanecia no bolso da calça e aspergira por todo o corpo o perfume certo.
No caminho, ligara pra uns tantos, que quase sempre lhe deram força e fez meia dúzia de juramentos, única coisa que, lá no futuro, arrepender-se-ia inocente. Entrara não tão confiante assim, fingidor de que conversava algo, que ao menos raciocinava algo, entre os goles rápidos e a respiração ofegante. Indagaram-lhe se estava preparado, se sabia o que fazia, sabe lá deus o que aquele louco era capaz. Procurara as mais baixas palavras para xingá-los, o que lhes agradaria bastante, sabia. Preferira o deboche silencioso.
Mirava lá adiante e descia o olhar por todas as faces, esperando angustiadamente que já não mais a visse, pois não mais se lembrava do que falar, não mais sabia se a barba tinha sido feita no terceiro ou quarto dia ou se o perfume era... Virara o corpo para a direita e a viu, logo a sua frente. Com outro.
E aí as faixas amarelas, a água, o desespero...
Consciente de sua vertigem, reuniu todas as forças que ainda tinha com um único objetivo – equilibrar-se. Era como se não houvesse pernas, como se o corpo se resumisse a sua face desconsertada, que gangorreava procurando algo a se apoiar, vendo o chão se aproximar de um lado, depois do outro, sem controle, sem esperanças; como se não existisse tempo, como se o tempo fosse ele e o espaço também – as pessoas, os objetos, apenas prolongamentos de seu corpo, que devia estar caído já a esta hora, como ia lá saber.
Sentiu-se criança, no parque de diversões, girando a toda velocidade numa cadeira apertada, solto, enjoado, distante, sem conseguir gritar, vendo acima duas malditas luzes faiscando no céu escuro, parecendo os fogos que soltavam lá por aquelas bandas.
Virou-se, roubou o cigarro do amigo e o pôs na boca. O primeiro trago logo lhe lembrou que não sabia fumar. Tentaram afastar-lhe dali, mas todo o seu esforço em se permanecer de pé parece que lhe imobilizara, achavam.
Perceberam que respirava, que seus olhos piscavam, que estava vivo apesar da face pálida, sem expressão, e não tiveram tempo de segurar-lhe quando não se sabe como, desenraizara-se da terra e saiu à direção dela.
Ele, mesmo, não sabia o que acontecia. Só percebeu que andava quando afastando o outro que enlaçava sua mulher, deu com sua cara enraivecida. Surpreendeu-se e pensou em correr, sem saber ainda que seu corpo já o escravizara desde que a vira. Seus amigos, atrás, pelo que depois contaram, resolveram-se lá com o outro.
Ouvia as perguntas dela, via os gestos, sabia que era seu momento, hora de falar o que já tanto ensaiara e que tinha certeza ser infalível - seu reflexo no espelho já lhe assegurara. Eram duas ou três frases, impecáveis, era o olhar despretensioso para a camisa, a coçada na nuca disfarçada, e pronto. Era o que bastava...
Teve certeza de que movia a boca, que sua língua lá se movimentava, mas, pelo que consta, não conseguiu emitir qualquer som. Nenhuma palavra sequer. Nada.
Não teve culpa disso, foi tudo obra das luzes, achou; não tinha qualquer poder sobre o que fazia. Sem conseguir falar, curvou-se, pôs a mão no bolso da calça e retirou a foto que levava consigo. Viu a lágrima que caiu sobre ela, trouxe-a para perto e vagarosamente beijou a imagem de um casal abraçado.
Entregou-lhe a foto, levantou a cabeça, virou-se e foi embora.
A se recordar dos objetos celestes que conhecia e dos alucinógenos que não usara, à terceira aparição das listras, perguntou ao amigo o que seria aquilo, tão estranho, tão brilhoso, que riscava a noite, ziguezagueando desaprumado, e que a multidão parecia ignorar. Não obteve respostas, apenas um frasco d’água, que lhe foi entregue sob olhares suspeitos. Para afastar-se da desfeita, despejou todo o conteúdo no copo de whisky e pôs-se a pensar no desespero em que se encontrava.
Fizera a barba propositadamente no quarto dia anterior, de forma a ficar do jeito que ela mais gostava exatamente na data programada. Vestira a camisa vermelha, do lado bonito e, de frente ao espelho, ensaiara todas as palavras a serem ditas. Comprovara que a fotografia dos dois permanecia no bolso da calça e aspergira por todo o corpo o perfume certo.
No caminho, ligara pra uns tantos, que quase sempre lhe deram força e fez meia dúzia de juramentos, única coisa que, lá no futuro, arrepender-se-ia inocente. Entrara não tão confiante assim, fingidor de que conversava algo, que ao menos raciocinava algo, entre os goles rápidos e a respiração ofegante. Indagaram-lhe se estava preparado, se sabia o que fazia, sabe lá deus o que aquele louco era capaz. Procurara as mais baixas palavras para xingá-los, o que lhes agradaria bastante, sabia. Preferira o deboche silencioso.
Mirava lá adiante e descia o olhar por todas as faces, esperando angustiadamente que já não mais a visse, pois não mais se lembrava do que falar, não mais sabia se a barba tinha sido feita no terceiro ou quarto dia ou se o perfume era... Virara o corpo para a direita e a viu, logo a sua frente. Com outro.
E aí as faixas amarelas, a água, o desespero...
Consciente de sua vertigem, reuniu todas as forças que ainda tinha com um único objetivo – equilibrar-se. Era como se não houvesse pernas, como se o corpo se resumisse a sua face desconsertada, que gangorreava procurando algo a se apoiar, vendo o chão se aproximar de um lado, depois do outro, sem controle, sem esperanças; como se não existisse tempo, como se o tempo fosse ele e o espaço também – as pessoas, os objetos, apenas prolongamentos de seu corpo, que devia estar caído já a esta hora, como ia lá saber.
Sentiu-se criança, no parque de diversões, girando a toda velocidade numa cadeira apertada, solto, enjoado, distante, sem conseguir gritar, vendo acima duas malditas luzes faiscando no céu escuro, parecendo os fogos que soltavam lá por aquelas bandas.
Virou-se, roubou o cigarro do amigo e o pôs na boca. O primeiro trago logo lhe lembrou que não sabia fumar. Tentaram afastar-lhe dali, mas todo o seu esforço em se permanecer de pé parece que lhe imobilizara, achavam.
Perceberam que respirava, que seus olhos piscavam, que estava vivo apesar da face pálida, sem expressão, e não tiveram tempo de segurar-lhe quando não se sabe como, desenraizara-se da terra e saiu à direção dela.
Ele, mesmo, não sabia o que acontecia. Só percebeu que andava quando afastando o outro que enlaçava sua mulher, deu com sua cara enraivecida. Surpreendeu-se e pensou em correr, sem saber ainda que seu corpo já o escravizara desde que a vira. Seus amigos, atrás, pelo que depois contaram, resolveram-se lá com o outro.
Ouvia as perguntas dela, via os gestos, sabia que era seu momento, hora de falar o que já tanto ensaiara e que tinha certeza ser infalível - seu reflexo no espelho já lhe assegurara. Eram duas ou três frases, impecáveis, era o olhar despretensioso para a camisa, a coçada na nuca disfarçada, e pronto. Era o que bastava...
Teve certeza de que movia a boca, que sua língua lá se movimentava, mas, pelo que consta, não conseguiu emitir qualquer som. Nenhuma palavra sequer. Nada.
Não teve culpa disso, foi tudo obra das luzes, achou; não tinha qualquer poder sobre o que fazia. Sem conseguir falar, curvou-se, pôs a mão no bolso da calça e retirou a foto que levava consigo. Viu a lágrima que caiu sobre ela, trouxe-a para perto e vagarosamente beijou a imagem de um casal abraçado.
Entregou-lhe a foto, levantou a cabeça, virou-se e foi embora.
