quinta-feira, 22 de maio de 2008



Anos mais tarde, ao se lembrar do fato, ele haveria de achar graça de sua aflição e contaria a seus pares, sorridente, a sua boa sorte na vida. Na hora, porém, tudo a que conseguia se ater eram duas faixas amarelas que surgiam irradiantes no céu.

A se recordar dos objetos celestes que conhecia e dos alucinógenos que não usara, à terceira aparição das listras, perguntou ao amigo o que seria aquilo, tão estranho, tão brilhoso, que riscava a noite, ziguezagueando desaprumado, e que a multidão parecia ignorar. Não obteve respostas, apenas um frasco d’água, que lhe foi entregue sob olhares suspeitos. Para afastar-se da desfeita, despejou todo o conteúdo no copo de whisky e pôs-se a pensar no desespero em que se encontrava.

Fizera a barba propositadamente no quarto dia anterior, de forma a ficar do jeito que ela mais gostava exatamente na data programada. Vestira a camisa vermelha, do lado bonito e, de frente ao espelho, ensaiara todas as palavras a serem ditas. Comprovara que a fotografia dos dois permanecia no bolso da calça e aspergira por todo o corpo o perfume certo.

No caminho, ligara pra uns tantos, que quase sempre lhe deram força e fez meia dúzia de juramentos, única coisa que, lá no futuro, arrepender-se-ia inocente. Entrara não tão confiante assim, fingidor de que conversava algo, que ao menos raciocinava algo, entre os goles rápidos e a respiração ofegante. Indagaram-lhe se estava preparado, se sabia o que fazia, sabe lá deus o que aquele louco era capaz. Procurara as mais baixas palavras para xingá-los, o que lhes agradaria bastante, sabia. Preferira o deboche silencioso.

Mirava lá adiante e descia o olhar por todas as faces, esperando angustiadamente que já não mais a visse, pois não mais se lembrava do que falar, não mais sabia se a barba tinha sido feita no terceiro ou quarto dia ou se o perfume era... Virara o corpo para a direita e a viu, logo a sua frente. Com outro.

E aí as faixas amarelas, a água, o desespero...

Consciente de sua vertigem, reuniu todas as forças que ainda tinha com um único objetivo – equilibrar-se. Era como se não houvesse pernas, como se o corpo se resumisse a sua face desconsertada, que gangorreava procurando algo a se apoiar, vendo o chão se aproximar de um lado, depois do outro, sem controle, sem esperanças; como se não existisse tempo, como se o tempo fosse ele e o espaço também – as pessoas, os objetos, apenas prolongamentos de seu corpo, que devia estar caído já a esta hora, como ia lá saber.

Sentiu-se criança, no parque de diversões, girando a toda velocidade numa cadeira apertada, solto, enjoado, distante, sem conseguir gritar, vendo acima duas malditas luzes faiscando no céu escuro, parecendo os fogos que soltavam lá por aquelas bandas.

Virou-se, roubou o cigarro do amigo e o pôs na boca. O primeiro trago logo lhe lembrou que não sabia fumar. Tentaram afastar-lhe dali, mas todo o seu esforço em se permanecer de pé parece que lhe imobilizara, achavam.

Perceberam que respirava, que seus olhos piscavam, que estava vivo apesar da face pálida, sem expressão, e não tiveram tempo de segurar-lhe quando não se sabe como, desenraizara-se da terra e saiu à direção dela.

Ele, mesmo, não sabia o que acontecia. Só percebeu que andava quando afastando o outro que enlaçava sua mulher, deu com sua cara enraivecida. Surpreendeu-se e pensou em correr, sem saber ainda que seu corpo já o escravizara desde que a vira. Seus amigos, atrás, pelo que depois contaram, resolveram-se lá com o outro.

Ouvia as perguntas dela, via os gestos, sabia que era seu momento, hora de falar o que já tanto ensaiara e que tinha certeza ser infalível - seu reflexo no espelho já lhe assegurara. Eram duas ou três frases, impecáveis, era o olhar despretensioso para a camisa, a coçada na nuca disfarçada, e pronto. Era o que bastava...

Teve certeza de que movia a boca, que sua língua lá se movimentava, mas, pelo que consta, não conseguiu emitir qualquer som. Nenhuma palavra sequer. Nada.

Não teve culpa disso, foi tudo obra das luzes, achou; não tinha qualquer poder sobre o que fazia. Sem conseguir falar, curvou-se, pôs a mão no bolso da calça e retirou a foto que levava consigo. Viu a lágrima que caiu sobre ela, trouxe-a para perto e vagarosamente beijou a imagem de um casal abraçado.

Entregou-lhe a foto, levantou a cabeça, virou-se e foi embora.

segunda-feira, 28 de abril de 2008


Adeus, minha doce puta.
Minha estima agradece teus valorosos préstimos.
Bem dizer, nem muito pediste em troca -
Meus desagrados, teu orgasmo, nosso tempo...
Só. Penso que falhaste em teus propósitos, pois.
Ou já não mais entendo eu de propósitos quanto outrora.

Adianto-te que mentirei ao ser forçado a reconhecer minha culpa.
Mas, veja lá, minha cristandade já morrera bem antes de ti.
Tal ‘quela vez que te cuspi aos pés.
Deus sabe que há pecados maiores, menos sinceros...
“Te perdôo por te trair”, nobre devassa.
Nem que para isso minhas lágrimas me traiam primeiro.

Sinto, mas não te desejarei felicidade - tal qual cogitei um dia.
És uma puta, mas ora... Teu ofício não lhe confere caprichos.
Os tempos de cabaré já são outros; é árduo, mas hei de seguir os passos.
Por agora crescerei; chorarei sozinho e libertinar-me-ei aos teus olhos.
É o que me resta, minha doce puta.
Adeus. Vai-te tarde...